FMU

Coluna de artigos dos professores do Curso de Relações Internacionais da FMU, coordenado pela Profª Drª Stella C. Schrijnemaekers.

19/11/2019

A crise no Norte da Síria e a luta por autodeterminação curda / Bruna Ferreira

A atual crise no Norte da Síria, região onde se concentra a maioria curda neste país, não condiz com a relativa estabilidade que foi se conformando nesse espaço, mesmo em meio a Guerra Civil. O governo Assad, com a escalada violenta do conflito, passa a se concentrar nas regiões mais centrais do país, onde a oposição estava mais ativa. Isto gera um vácuo de poder que é então ocupado por um conjunto de organizações, sobretudo curdas, que passam a delinear um novo projeto político. O que nasce é uma administração autônoma, que tem como foco uma democracia participativa de base e não se pretende separatista.

Esta relativa estabilidade, se comparada a territórios como Aleppo e Damasco, é perturbada pelas violentas ações do Estado Islâmico e do Exército Turco. A atuação dos últimos uma constante, que inclusive levou à ocupação de uma das províncias autônomas da região, Afrin, em 2018. Por outro lado, a ação das Forças Democráticas Sírias (SDF, em inglês), que conta com a participação central da Unidade de Defesa das Mulheres, YPJ, foi essencial para o combate ao ISIS.

Os ataques da Turquia iniciados em 9 de outubro inauguram um novo momento. A retirada de tropas dos Estados Unidos da região, que desde 2015 apoiam o combate ao ISIS, é entendida pelo presidente turco, Erdogan, como sinal verde para avançar sobre a fronteira. Dois elementos são centrais no discurso turco: combater os curdos da região, que considera “terroristas”, devido à completa incapacidade de lidar com sua própria Questão Curda, e reassentar dois milhões de refugiados sírios. No entanto, o que Erdogan parece ser incapaz de vislumbrar é que a invasão do seu exército está gerando deslocamentos forçados da população civil, obrigada a se retirar da chamada “zona segura” de 30 km no interior da fronteira síria.

Ademais, é notável como os povos dessa administração autônoma estão a mercê da intervenção de potências mundiais e regionais. Diante da violência da invasão turca, com mortes de civis e suspeita de uso de armas químicas, os EUA tentaram intervir, estabelecendo um cessar-fogo de cinco dias com a Turquia, para a retirada das SDF da “zona segura”. O acordo mais recente entre Turquia e Rússia envolve patrulhas conjuntas no Norte da Síria para garantir a retirada definitiva das SDF, em um nítido movimento russo de assumir um protagonismo na crise regional, possibilitado com a saída dos EUA.

Ao que parece, a relativa estabilidade chegou ao fim. A “zona segura” de Erdogan retira dos curdos a cidade de Kobane, símbolo da resistência contra o ISIS. Também retira a possibilidade de construção de um projeto político de autonomia. Desloca populações civis de seus lares e adiciona uma questão no caminho já complexo da solução para a crise síria, que se arrasta há oito anos. Os próximos meses serão decisivos para entender não somente como os curdos se colocam nesse novo contexto, mas também possíveis novas configurações do conturbado contexto sírio.

Bruna Ferreira, mestre em Relações Internacionais e professora de Relações Internacionais nas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).

As opiniões expressas pelo autor não refletem, necessariamente, a posição do Portal MundoRI.com.

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