Fabrício H. Chagas Bastos

Fabrício H. Chagas Bastos é pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (NUPRI/USP) e Doutorando em Integração da América Latina pela mesma Universidade.

25/07/2014

Admirável Mundo Velho

Quando a União Soviética (URSS) ruiu sobre o próprio peso, o Ocidente sob liderança dos Estados Unidos convocou o mundo a construir uma "nova ordem mundial". Sob esta ótica, a Rússia estava sepultada enquanto potência internacional, e a China comunista (prenhe das reformas realizadas em sua longa marcha em direção à modernização, é verdade) passava a ser aceita e integrada ao sistema internacional liberal criado pelos EUA. Das fraturas da Guerra Fria, Japão e Alemanha (e mais adiante a União Europeia) passaram a tomar parte no conjunto de países que governam o ritmo da economia e da política mundial. É esse fenômeno que os analistas costumam chamar de multipolaridade - os diversos polos de atração e influência que alguns países representam.
 
Já na década dos 2000, Jim O'Neill, economista do banco Goldman Sachs, criou o termo BRICS, num mundo cujo desenho não era mais o duro conflito entre capitalistas e comunistas, a aposta de então era a de que as economias emergentes de Brasil, Rússia, Índia e China seriam o grande motor do mundo nos anos vindouros - a África do Sul foi adicionada ao acrônimo anos depois. Matias Spektor mostra que a criação não foi lá tão original.
 
De acordo com os entusiastas dessa nova divisão de poder, os BRICS promoveriam uma revisão das instituições criadas no pós-Guerra e permitiriam um melhor balanceamento das oportunidades e responsabilidades, proporcionando um melhor convívio entre os países no globo. Estaria configurada a multipolaridade definitiva. Pura bobagem!
 
Em 2009, ainda na ressaca da última crise financeira internacional, os sócios da junção de letras inauguraram uma série de encontros anuais. O resultado concreto de todas elas são declarações protocolares, fotos para a imprensa e nada. Cada um continua levando seus interesses e estratégias de maneira independente.
 
Este ano o encontro aconteceu em Fortaleza, e um estardalhaço tem sido feito por conta da criação do Banco dos BRICS. A instituição nasce com um leque de objetivos interessantes, que vai de financiar projetos de desenvolvimentos nos países parceiros e em outros mais pobres, passa por uma oposição frontal à lentidão das mudanças no FMI e chega à uma cesta de moedas para trocas comerciais diretas.
 
A hierarquia entre os países que compõem os BRICS é alta, a distância entre as realidades de cada um deles no jogo global é imensa e os interesses de cada um são bastante diferentes. Por isso, antes de comemorar entusiasticamente o revisionismo emergente, ou "mais um passo em direção ao fortalecimento do Sul Global", reviso duas posições que apontam na direção contrária. Os sócios mais poderosos, Rússia e China, merecem atenção.
 
Primeiro, o Ocidente (os EUA e a Europa Ocidental) decretou o fim da Rússia enquanto potência. Duas questões vêm a reboque: algum dia a Rússia perdeu protagonismo? Mais, em algum momento os russos se interessaram em reformar instituições internacionais - falo das que efetivamente detêm o controle sobre as decisões do mundo? Não, nunca.
 
A resposta às duas perguntas pode ser encontrada na anexação da Criméia. Putin ao retomar estratégia de uma "Rússia Grande", usando a tática geopolítica de recuperar a importância do país ante o "estrangeiro próximo", vingou os anos de humilhação internacional à Rússia e encomendou uma cova rasa à tão cara ordem liberal acalentada pelos ocidentais.
 
Moscou aquece os lares e move os carros da Europa Ocidental via Ucrânia. É importante e forte demais para sofrer sanções efetivas dos europeus (como aconteceu com o Iraque, completamente isolado por anos) - mesmo com as ações deliberadamente belicosas que Putin tomou sobre a crise ucraniana. O arsenal nuclear russo garante dissuasão contra qualquer tentativa de agressão militar. Numa lógica realista e simples, a Rússia não é emergente e não pretende revisar o atual estado de coisas do mundo, ao contrário, pretende ampliar seu espaço e manter as coisas exatamente como estão.
 
O mesmo tratamento é dispensado à China. Tendo saído de uma pobreza que corresponde ao seu tamanho, o país saltou de uma economia agrícola atrasada para a geração de tecnologia de ponta num átimo, não mais que sessenta anos. Pois bem, é de se presumir que com tamanha força queira mudar o eixo do mundo a seu favor, revisar as regras do jogo. Não é bem assim.
 
Os chineses são os maiores credores da dívida pública dos Estados Unidos, inundaram o mundo com seus produtos, são os maiores consumidores de matérias-primas e alimentos do globo, produzem tecnologia autonomamente, têm uma presença marcante no continente africano e um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Com gestos assertivos e sem beligerância, moldam à sua vontade os rumos já estabelecidos e não assumem uma postura de superpotência - o que seguramente já são. Ao invés da polícia do mundo, são os provedores e financiadores do mundo contemporâneo, e que, para o bem dos negócios, deve continuar como está.
 
Pensar os BRICS como uma nova solução multipolar é nada mais que do que a ilusão de um admirável mundo velho.

+ Artigos Postados

Agenda+

Agenda // Cursos e Eventos

Curso Inteligência Comercial para o Mercado Internacional

Cidade: São Paulo
Data: 08 de outubro de 2016
Horário: 09h00 às 17h00
Inscreva-se

Mais lidas