Marcos Troyjo

É economista e cientista social e mora entre Nova York e o Rio. Fez doutorado em sociologia das relações internacionais na USP e pós-doutorado na Universidade de Columbia, em Nova York, onde também é professor adjunto de relações internacionais e políticas públicas e dirige o BRICLab. É professor-conferencista também no Ibmec. Trabalhou como diplomata de carreira e foi secretário de imprensa da Missão do Brasil junto à ONU em Nova York.

08/08/2014

Argentina, novas relações carnais

A força arregimentada por Bush pai na 1ª Guerra do Golfo contou com reforço simbólico.
 
Nove anos após o traumático conflito nas Malvinas e o estranhamento com potências ocidentais, a Argentina remetia uma fragata ao esforço de constranger o apetite de Saddam Hussein por sua vizinhança.
 
Com o gesto, Buenos Aires alinhava-se a Washington em "relações carnais". Mediante uma economia dolarizada, a Argentina sintonizara-se à banca multilateral e a Wall Street. Nada disso impediu o esfacelamento do peso em 2001 e o subsequente calote.
 
Envenenou-se o entusiasmo pela Alca. Desmoronou o "realismo periférico".
 
O olhar estratégico argentino orientou-se então ao Brasil.
 
Já se jogara pá de cal sobre velhos antagonismos geopolíticos com a renúncia conjunta nos anos 90 ao desenvolvimento de armas nucleares. Trocas comerciais sob o guarda-chuva do Mercosul se expandiam.
 
No Brasil de Lula, o novo antiamericanismo argentino tinha muro de arrimo.
 
No crescente intercâmbio entre os dois grandes do Cone Sul, a escala da economia brasileira sombreou a do vizinho.
 
Todo o "hype" em torno dos Brics e da "brasilmania" fez brotar sentimento dúbio nos círculos decisórios argentinos. Dor de cotovelo pela condição coadjuvante na América do Sul. Reconforto na certeza de que, atrelada à reluzente estrela econômica do Brasil, o país arremeteria.
 
Nessa luz, compreende-se toda ciclotímica afirmação da "individualidade" argentina.
 
Discursos sobre os benefícios da integração, mas catimba na liberalização multissetorial do comércio com o Brasil e nas negociações Mercosul-União Europeia.
 
A "brasildependência" converteu-se num pesadelo em Buenos Aires.
 
Comércio bilateral declinante. Diminuição do influxo de investimentos produtivos. Certeza de não contar com o vizinho num quadro de liquidez escassa. Daí, a percepção de que os reflexos do subdesempenho econômico brasileiro dos últimos quatro anos são mais fortes na Argentina do que os efeitos do marasmo argentino sobre o Brasil.
 
Esse cenário de parcas opções –agravado pela crise dos abutres– leva a elite argentina a abraçar nova promessa de "relações carnais". Desta vez, o parceiro é a China.
 
Pequim e Buenos Aires agora mantêm acordo para a operação de troca (currency swap) de US$ 11 bilhões entre seus bancos centrais. Disso emerge um "curralito comercial". A Argentina pode pagar importações chinesas em yuan.
 
A China rapidamente tornou-se o segundo maior parceiro comercial argentino.
 
O Banco de Desenvolvimento da China está injetando US$ 8 bilhões em hidrelétricas e na rede ferroviária. Os chineses entram com tudo na reserva de Vaca Muerta, na Patagônia, onde supostamente encontram-se os maiores depósitos não-convencionais de petróleo e gás do planeta –em que muitos enxergam o "último trem argentino rumo à prosperidade".
 
Com os EUA desinteressados e demonizados e o Brasil envolto em seus próprios dilemas, a Argentina é cada vez mais atraída ao campo gravitacional chinês.
 
Fonte: Folha de S. Paulo
 

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