Marcos Troyjo

É economista e cientista social e mora entre Nova York e o Rio. Fez doutorado em sociologia das relações internacionais na USP e pós-doutorado na Universidade de Columbia, em Nova York, onde também é professor adjunto de relações internacionais e políticas públicas e dirige o BRICLab. É professor-conferencista também no Ibmec. Trabalhou como diplomata de carreira e foi secretário de imprensa da Missão do Brasil junto à ONU em Nova York.

15/08/2014

Caprichos do destino

Da aguda observação e estudo dos feitos de grandes homens, Maquiavel conclui que o destino do Príncipe se faz por "virtù" e "fortuna".
 
A primeira remete ao talento político, à habilidade na condução dos assuntos de Estado. Governar com a astúcia da raposa, para identificar armadilhas, e a força do leão, para afugentar lobos.
 
A segunda reconhece o império da sorte (boa ou má) sobre o curso dos acontecimentos. Essa dimensão avassaladora do imponderável, que Maquiavel comparava à força de um rio, encurtou a brilhante trajetória política de Eduardo Campos.
 
O rio indômito da História nos inunda com seus caprichos. Em 1931, Churchill procurava em Nova York o prédio do banqueiro Bernard Baruch, com quem teria um encontro. Ao descer de um táxi na Quinta Avenida, olhou britanicamente para a esquerda. Não percebeu o sentido correto do tráfego. Atropelado, quase morreu.
 
Naquele mesmo ano, o jovem aristocrata inglês John Scott-Ellis, mais tarde Lorde Howard de Walden, dirigia seu novíssimo Fiat vermelho pelas ruas de Munique. Um sujeito desatento atravessou-lhe a frente e foi atingido. O distraído pedestre era Hitler. Impossível imaginar que o século 20 e estes nossos tempos seriam os mesmos tivesse aquele ano de 1931 consumido o grande estadista britânico e o tirano nazista.
 
É da mesma forma difícil projetar o impacto da presença de Eduardo Campos como protagonista da cena brasileira e latino-americana nas próximas décadas. Tudo indica, no entanto, que ela seria muito positiva. Ademais da condição de representante de uma nova geração na política, sua reputação como líder modernizador, arquiteto de consensos e bom gestor já havia transcendido o Brasil.
 
Sua visão de mundo e do que deveria ser a estratégia de inserção internacional do país encontrava-se, há um tempo, alinhada com nossas melhores tradições diplomáticas e antenadas com as megatendências do cenário global. Ao longo desta campanha presidencial, o candidato Campos preconizou uma diplomacia "sem preconceitos" e voltada à construção de um sistema internacional multipolar.
 
Em prol dos interesses nacionais, sugeria "romper amarras com velhas institucionalidades do século 20, como o Mercosul". Desejava, no limite, resgatar o Itamaraty da descabida função de servir a uma "política externa de um partido, não de um país". Essas grandes linhas são boa métrica para a atuação internacional que se deseja para o Brasil a partir de 2015.
 
A forma trágica e odiosamente prematura com que se interrompeu a biografia do jovem líder ganhou visibilidade planetária. Todos os principais veículos de comunicação do mundo destacam o infortúnio. A Casa Branca e chancelarias dos mais diferentes países expressam condolências.
 
Essa grande repercussão vai além do drama humano, de formalidades diplomáticas ou da velocidade e proporção com que mídia e tecnologia interconectam a sociedade global. Ao levar Eduardo Campos, o destino realça indiretamente a importância que o mundo contemporâneo atribui aos rumos do Brasil.
 
Publicado em Folha de S. Paulo, em 15/08/2014

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