Marcos Troyjo

É economista e cientista social e mora entre Nova York e o Rio. Fez doutorado em sociologia das relações internacionais na USP e pós-doutorado na Universidade de Columbia, em Nova York, onde também é professor adjunto de relações internacionais e políticas públicas e dirige o BRICLab. É professor-conferencista também no Ibmec. Trabalhou como diplomata de carreira e foi secretário de imprensa da Missão do Brasil junto à ONU em Nova York.

01/08/2014

Hipersensibilidade jeca

A tensão governo brasileiro-mercado é reveladora dos repentes e erupções emocionais que acumulamos em nossa interação com o mundo.
 
Além de erros de diagnóstico ou visão de futuro, tal acervo de improvisos demonstra amadorismo e desconforto na convivência com uma sociedade aberta e global. É agravado por atabalhoamento juvenil numa cena mundial em que holofotes são lançados mesmo a países de maior tradição insular.
 
Há dez anos, quase invalidamos o visto de trabalho do correspondente do "New York Times". Larry Rohter esteve prestes a ser expulso ao retratar suposta predileção do então presidente por um bom copo. A mercurial reação do governo fez com que a matéria de baixo relevo fosse avidamente lida no mundo todo.
 
Em 2008, dissemos que do vagalhão precipitado pela crise financeira chegaria ao país apenas uma "marolinha". Hoje, indevidamente atribuímos nosso subdesempenho econômico àquele tsunami.
 
Em 2009, denunciamos a "guerra cambial" perpetrada pela frouxidão monetária dos ricos. Agora, torcemos secretamente para que os estímulos continuem de modo a não rarear o fluxo de capitais para emergentes como nós.
 
Em 2011, peroramos a Merkel que não se superam crises com austeridade, mas crescimento. Fecharemos o quadriênio Dilma com o mais baixo crescimento desde os tormentosos anos Collor.
 
De 2012 para cá, utilizamos ministros de Estado ou notas do Planalto para rebater o "Financial Times" ou "The Economist". Não apenas por discordar da crítica, mas sobretudo por entender não terem direito de "imiscuir-se" em assuntos do país.
 
Em 2013, empenhamos enorme capital diplomático para eleger um brasileiro à direção da OMC, supostamente para fortalecer interesses dos países em desenvolvimento. Professamos fé nos acordos multilaterais, pois neles não há "imposição dos mais fortes sobre os mais fracos". Hoje vemos o frágil compromisso de Bali, pelo qual Roberto Azevêdo moveu montanhas, torpedeado por Índia, Venezuela e Cuba.
 
Ao lugar-comum do Santander sobre impactos econômicos da reeleição –já manifestado em centenas de informes de instituições financeiras– a presidente reagiu como "inadmissível interferência" no processo eleitoral.
 
Seu antecessor, há pouco considerado o "político mais popular do mundo", pediu a cabeça –e o bônus– do redator do sofrível texto. Este, dada a repercussão, já correu mundo graças ao Google Translate.
Nesta atribulada semana, quando a óbvia prudência recomendaria relativizar eventual default argentino, bradamos aos quatro ventos na Cúpula do Mercosul que o impasse Buenos Aires-abutres "ameaça o sistema financeiro internacional".
 
Essa lista não-exaustiva de equívocos evidencia desdém com estratégia de inserção global delineada pelo interesse nacional de longo prazo. Em vez disso, posturas imediatistas e direcionadas ao perecível consumo do público interno. Estamos respondendo aos desafios de uma conjuntura planetarizada com uma hipersensibilidade jeca.
 
mt2792@columbia.edu
 
Fonte: Folha de S. Paulo

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