Dr. Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues

É desembargador aposentado do TJESP e escritor. Autor dos romances “A rainha da boate”, “Do amor e outras fraudes” e “Criônica”. Publicou também um livro de contos, “Tragédia na ilha grega”, disponível à leitura no site www.franciscopinheirorodrigues.com.br. É membro do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP). E-mail: oripec@terra.com.br.

25/07/2014

O massacre de Gaza

Mais uma vez está comprovado que nenhum povo — culto ou inculto — está livre da desgraça de ser conduzido por líderes astutos, moralmente medíocres, sedentos de glória e com visão curta ou mesmo delirante. É o que ocorre com a população judia — bem educada, informada e intelectualizada — que vive em Israel, assustada com a insegurança fomentada pelo atual governo que, sem imaginação, só pensa em represálias sangrentas na solução de um velho problema: a ocupação territorial de áreas que a justiça internacional já decidiu que pertencem aos palestinos. O medo coletivo é um grande fornecedor de votos.

A Alemanha, nos anos 30 do século XX, pariu Hitler; a Revolução Russa de 1917 ovulou Stálin; Uganda abortou Idi Amin Dada e Israel produziu esse político, por enquanto sem adjetivação definitiva, chamado Benjamin Netanyahu. Inclassificável, aguardando o rotulação exata, porque ainda está  alive and kicking (vivo e chutando) — para desgraça da população palestina. Todo ser humano pode, em tese, mesmo remotamente, receber alguma inesperada “iluminação” interior antes de apodrecer no caixão, ou transformado em pote de cinzas de triste memória.

Diz a doutrina cristã que o apóstolo Paulo, antes da sua conversão ao cristianismo, no caminho de Damasco, foi um perseguidor implacável dos cristãos. Se Jeová ainda não perdeu a esperança em relação a Netanyahu — Jeová, como também o Deus cristão, respeita a liberdade de seus seguidores — certamente torce, angustiado, as divinas mãos, aguardando que um raio de lucidez e bondade, ou um curto-circuito neurológico, modifique a mentalidade do atual líder de Israel, salvando sua biografia antes que seja tarde.

Não há garantia alguma de que, mesmo entre os judeus, Netanyahu não será lembrado futuramente como um veneno de duas pernas que só prejudicou seu povo, no longo prazo, embora pretendendo beneficiá-lo.

Ninguém amou a Alemanha mais do que Hitler, embora austríaco de nascimento. E todos sabem como ele deixou a Alemanha, em escombros, quando se suicidou, em 1945, após matar Eva Braun — sua esposa de um único dia mas companheira há anos — e até Blondi, a cadela pela qual sentia terna afeição. Mesmo sendo quem era, tinha seu lado sentimental.

Hitler era um homem tremendamente patriota mas unilateralmente “bem intencionado”. Considerava inferiores os eslavos, negros, judeus e ciganos, e apenas “meio-inferiores”, os demais seres humanos. Essa visão estreitamente seletiva acabou prejudicando o que mais adorava: a raça alemã. Um fim trágico assemelhado pode ocorrer, no longo prazo, com o atual chanceler israelense, se sua agressividade não for controlada por ele mesmo ou pela pressão destemida — cada vez mais rara — das grandes potências. Como é sempre obedecido, após seus encontros com Barack Obama, convenceu-se de que está acima do bem e do mal, podendo fazer o que bem entende. Esqueceu-se de que é fácil iniciar uma agressão, ou massacre, mas nunca se sabe quais serão as consequências, próxima, ou remotamente. Filhos e netos de civis que morrem, sem culpa alguma, em Gaza, conservam na geladeira da alma, seus desejos de vingança.

Um dos maus efeitos colaterais da mera existência de governantes abusivos está generalização por analogia. Se tal ou qual líder era assim ou assado, seus apoiadores também assim eram e continuam sendo. Se Hitler tratava fria ou perversamente aqueles que não concordavam com seus planos, milhões de pessoas, em todo o planeta, concluíram que todo alemão deveria ter os mesmos defeitos do Führer: —  “Afinal, não o apoiavam? Se apoiavam, eram iguais!”

Engano. Esse “apoio” era mais uma espécie de coquetel psicológico composto de ressentimento do auditório (a derrota alemã na Primeira Grande Guerra), astuta propaganda oficial e uma espécie de hipnotismo coletivo oriundo da força oratória de um orador convicto e apaixonado. Um velho alemão que vivia em São Paulo e que, quando adolescente, esteve em comícios ouvindo discursos do Führer contou que após tais encontros as pessoas saíam meio grogues, fanatizadas, apoiando Hitler, mesmo não sabendo direito porque o apoiavam tanto.    

Quem, no Brasil, soube do comportamento — educado e benévolo — da seleção de futebol alemão, quando treinava na Baía, na recente Copa, até “admirou-se” (?!) da delicadeza de tais atletas. Isso porque os jogadores não tinham nada de “superior”. Como a Alemanha, décadas atrás, foi conduzida por um nazista impiedoso, as pessoas generalizaram sobre o caráter alemão. Tomaram o todo, desconhecido, pela parte conhecida. E o caráter do povo judeu, tão bom quanto qualquer outro, será julgado — já está sendo... — com base na agressividade exageradas do atual primeiro-ministro israelense, massacrando, desnecessariamente, palestinos inocentes na Faixa de Gaza.

Tudo começou, na atual conjuntura, com o lamentável assassinato de três jovens judeus que excursionavam na Cisjordânia, desatentos ao perigo em uma região impregnada de más lembranças. Provavelmente os autores da maldade foram palestinos marginais, ou jovens ignorantes que tiveram parentes ou amigos maltratados por soldados ou colonos judeus.

Analogamente, quem, no Brasil, transita por certas favelas corre perigo de morte. O mesmo ocorre mesmo em algumas áreas “barra pesada” de Nova Iorque e de muitas cidades em todo o mundo. A polícia palestina não pode estar em toda parte. O assassinato dos três jovens foi um caso de polícia, não de política.

Após a morte dos três jovens judeus um jovem palestino foi queimado vivo em Jerusalém, obviamente sem aprovação do governo israelense. Aí alguns palestinos irresponsáveis e enraivecidos resolveram lançar foguetes sem alvo específico que mais assustam do que matam, ou ferem. Caem, em sua quase totalidade, em lugares pouco habitados e geralmente são destruídos no ar porque Israel dispõe de um sistema avançado de defesa até mesmo individual, uma espécie de GPS que avisa a aproximação de foguetes. O que mais fere é a queda de fragmentos de tais foguetes. Aí — na infindável série de revides — Netanyahu, para mostrar valentia, resolver bombardear e invadir Gaza, seguindo sua velha e única tática sem imaginação: “olho por olho’.

Gandhi, o conhecido líder espiritual hindu, dizia, com outras palavras, que esse tipo primitivo de “justiça” vai acabar deixando todos cegos. E, até agora, segundo a imprensa internacional, morreram, na presente invasão de julho de 2014  bem mais de  600 palestinos, com milhares de feridos. Do lado israelenses as perdas não chegam a 30. Em termos militares, para cada israelense morto, perecem 20 palestinos.”  “Em compensação”, estes últimos conseguiram, ontem, fazer com que um de seus foguetes caísse próximo do aeroporto de Telavive, levando as empresas aéreas a suspender os voos para Israel.

Como e quando terminará a série infindável de recíprocos ataques vingativos?

O “capital” de simpatia que o mundo concedeu às vítimas do Holocausto está cada vez mais desfalcado, chegando quase ao ponto zero. Por culpa da política arrogante do referido político que parte para imediatas e violentas retaliações toda vez que um cidadão israelense é morto ou capturado pelos palestinos. A represália israelense é sempre várias vezes mais violenta que o ataque sofrido, demonstrando um impressionante complexo de superioridade. Alguns meses atrás Israel libertou da cadeia centenas de palestinos em troca da libertação de um único soldado israelense, como que dizendo: — “Um judeu equivale a mil árabes”.

Esse compulsivo — ou convulsivo? — sentimento de superioridade desperta, inevitavelmente, antipatias mundiais. Poucos anos atrás li, em nota de jornal ocupando espaço mínimo — talvez de modo proposital — que em uma sessão de cinema em determinada cidade europeia — lamentavelmente não recortei a notícia — quando apareceu na tela uma foto ou cena de cadáveres empilhados, em campo de concentração, boa parte da plateia vibrou com palmas e gritos de aprovação.

Obviamente, em todos os povos e raças há uma enorme variação de níveis de inteligência e de caráter. Sempre haverá tal variação e os piores, no caráter, procuram subir no “bonde” — o governo —  que mais satisfará sua sede pessoal de poder ou de riqueza. Daí o apoio ostensivo de alguns milhares de israelense que só pensam na felicidade deles, encarando os palestinos como meros “terroristas”, ou seres inferiores que melhor fariam se abandonassem, para sempre, toda a Palestina.

Esse projeto já foi confessado por alguns políticos judeus na última eleição. Há, porém, felizmente, alguns milhares de judeus que, mais humanitários, gostariam de viver em paz, mesmo em uma Palestina dividida. Não se manifestam muito, porém, receosos de que sua discordância seja considerada como uma “traição” à pátria. A velha doença do nacionalismo, ou solidariedade racial.

Acho graça, na verdade revolta, quando leio, em jornais sérios, fingidas “análises imparciais”, internacionais, do conflito, redigidas, na vasta maioria, por jornalistas estrangeiros de sobrenome judeu, explicando que a “comunidade internacional” deve intervir para que cessem as agressões “entre as duas partes”. O tom desses textos dá a impressão de que Israel e o Hamas travam uma luta de igual para igual, ou quase isso. Descrever o conflito desse modo equivale a dizer, falsamente, que dois homens “lutam”, quando um deles, fortíssimo, bem nutrido, de pé, pisoteia o rosto do outro, magérrimo, no chão. O que está por baixo é, obviamente, o palestino de Gaza.

O que está havendo é mesmo um massacre 90% unilateral, até agora impune, porque Israel tem uma força própria e ligações internacionais que dispensam até mesmo o apoio americano. A diplomacia e as finanças mundiais estão em alta proporção nas mãos israelenses. Cerca de um ano atrás, Netanyahu foi aos EUA para fazer autopropaganda e conseguiu uma promessa, por escrito, de Obama, para receber vultosos fornecimentos de armas. E ainda obteve um tratado com os EUA pelo qual, se Israel for atacado, ou se envolver em um conflito, os EUA terão que combater a seu lado.  
Foi-se o tempo em que Israel dependia do apoio americano. Dispõe, hoje, de uma avançada tecnologia de guerra, de informática, dinheiro e poder nuclear. Poder nuclear, que nega a qualquer outro país do Oriente Médio. Portanto, do que mais precisa para dar as cartas na região? O boicote internacional contra o programa nuclear iraniano é conduzido com os fios invisíveis de Israel. Barack Obama, um homem imensamente tímido, nunca foi capaz de dizer “não” ao líder israelense. Limita-se a emitir frases de efeito mas de pouco efeito. E Ban Ki-moon não fica atrás em timidez.

Não sei por quanto tempo ainda teremos uma relativa paz no nosso planeta. Israel, potência nuclear, não permite que qualquer outro país árabe fabrique armas atômicas. Só a ele mesmo concede esse direito, porque, previdente, não aderiu ao TNP – Tratado de Não Proliferação Nuclear. O Irã, ao tempo do Xá da Pérsia, assinou o Tratado e por isso a ONU pode exigir dele o direito de inspecionar instalações iranianas, pedindo provas e mais provas de que armas nucleares não estão sendo fabricadas. Quanto a Israel, ninguém inspeciona coisa alguma.

Um fato curioso e inexplicável: segundo o referido TNP, qualquer país assinante dessa convenção pode dela se retirar desde que declare por escrito essa intenção, com uma antecedência de três meses. Está no artigo 10 do Tratado. A Coreia do Norte assinou o TNP mas alguns anos atrás, usou o direito de retirada e por isso ninguém diz que a Coreia do Norte está infringindo as “normas internacionais” quando deixa claro que possui bombas nucleares. Até chegou a fazer testes.

Por que o Irã não fez uso dessa cláusula? Em 28 de maio de 2010 houve uma revisão desse tratado interditando a posse de armas de destruição em massa no Oriente Médio. Israel está no centro do Oriente Médio mas nem ligou para a proibição. Em 2012 haveria outra reunião dos países que permitiria o exame das instalações nucleares nessa região.  Israel disse que não compareceria ao encontro e afirmou que esse tratado era hipócrita e falho. Resumindo: Israel não se sente obrigado a nada que possa de algum modo diminuir sua força. Jimmy Carter chegou a dizer, em maio de 2008, que Israel tinha pelo menos 150 ogivas nucleares. E Netanyahu vive dizendo que se “constatar” que o Irã está na iminência de construir alguma arma nuclear, bombardeará as instalações persas sem pedir autorização de ninguém.

Estou, por acaso, propondo uma proliferação nuclear? Não. Apenas observo que o privilégio nuclear israelense estimula a agressividade de seu governo, já superior em tudo.

Não há o que temer na eventual fabricação de uma arma atômica por parte do Irã. Se ele decidisse lançar uma bomba em Telavive, horas depois o Irã estaria reduzido a cinzas radioativas por obra e graça de Israel e EUA. E provavelmente o míssil iraniano nem chegaria ao alvo. Seria interceptado. E Jerusalém não seria jamais um alvo iraniano porque se ali atacasse, milhares de árabes seriam também mortos.
A única solução racional e factível para pacificar o Oriente Médio está em Barack Obama vencer a própria timidez, convencer Ban Ki-moon — outro prudente — de que a divisão da Palestina em dois estados não pode mais esperar, delegando à ONU, ou a um órgão especial formado para isso, a missão de traçar a linha divisória, sem esperar autorização do governo de Israel. Netanyahu, pessoalmente, nunca dará essa autorização. Prefere morrer, afogado no próprio ódio.

No meu site Governo Mundial, disponível a partir de 1º de agosto próximo, esse problema será mais amplamente examinado.

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