Marcos Troyjo

É economista e cientista social e mora entre Nova York e o Rio. Fez doutorado em sociologia das relações internacionais na USP e pós-doutorado na Universidade de Columbia, em Nova York, onde também é professor adjunto de relações internacionais e políticas públicas e dirige o BRICLab. É professor-conferencista também no Ibmec. Trabalhou como diplomata de carreira e foi secretário de imprensa da Missão do Brasil junto à ONU em Nova York.

29/07/2014

O poderoso feng shui do senhor Xi

Tendo por epicentro a Cúpula dos Brics e a visita ao Brasil, o presidente chinês, Xi Jinping, realizou rosário de encontros com líderes latino-americanos nos últimos dias. Às diferentes vibrações negativas dos interlocutores latinos respondeu com um poderoso feng shui de promessas. Buscou harmonizar cada interlocutor com o cenário em que a China é superpotência econômica.
 
A um Brasil inibido pela mirrada infraestrutura e esquálidos 17% do PIB para investimentos acenou com verba para logística e transporte. A uma Argentina acossada pelos fundos abutres –e que ruma involuntariamente ao calote no próximo dia 30– sinalizou com eventuais empréstimos que lhe aliviariam a secura em praças tradicionais de liquidez no Ocidente.
 
Na Venezuela, elevou a autoestima de Maduro num momento em que asseclas da velha guarda do chavismo abandonam o herdeiro bolivariano. Em Cuba, acalentou os irmãos Castro em meio à assinatura de acordos perfunctórios.
 
Já no âmbito plurilateral, ao lado dos demais sócios dos Brics em Brasília, ouviu da Unasul e do fórum China-Celac convocação a uma nova ordem de inspiração multipolar.
 
A tudo reagiu com ares de concordância. Quando falou –palavras vagas–, defendeu uma "aliança estratégica" entre Pequim e os países da região.
 
Em seu périplo latino-americano, o senhor Xi sempre carregou duas coisas no bolso. Uma foto de Deng Xiaoping e um cartão multiúso com a palavra "estratégia". Quanto à primeira, o atual líder sabe que está presidindo fase da história recente da China tão desafiadora quanto a que Deng comandou desde a morte de Mao Tsé-tung.
 
Se Deng, a partir de 1978, lançou as bases para o fim do enclausuramento e a integração competitiva de seu país à economia global, Xi busca hoje tornar-se o grande timoneiro da "China 2.0".
 
Esta é menos a plataforma industrial-exportadora de produtos baratos e mais a gigante da valor agregado, capaz de competir em qualquer área em design ou tecnologia.
 
Os colegas latino-americanos não hesitaram em ecoar o caráter "estratégico" que Xi atribui às relações China-América Latina. No entanto, dado o escopo do planejamento chinês, o termo "estratégico" não tem o mesmo significado em Pequim ou nas capitais latino-americanas.
 
Estratégico para a China é assegurar-se de que a região pode expandir seu papel como provedora das commodities agrícolas e minerais de que os chineses tanto precisam. Para isso, a China fará chover dinheiro para que a débil infraestrutura desses países seja reforçada.
 
Já a América Latina vê a China como estratégica sob ângulo diferente. O colosso asiático é não apenas destino fácil para seus bens primários mas também potencial pivô de uma suposta nova ordem internacional com menor protagonismo dos EUA.
 
Ao som de palavras doces, Pequim dimensiona pragmaticamente seus interesses na América Latina. Nesse feng shui, cumprimos uma tripla função: produção de matérias-primas, destino de bens industriais e fonte de discursos sobre remédios às injustiças do mundo.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcostroyjo/2014/07/1490997-o-poderoso-feng-shui-do-senhor-xi.shtml
Publicado em 25/07/2014

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