Dr. Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues

É desembargador aposentado do TJESP e escritor. Autor dos romances “A rainha da boate”, “Do amor e outras fraudes” e “Criônica”. Publicou também um livro de contos, “Tragédia na ilha grega”, disponível à leitura no site www.franciscopinheirorodrigues.com.br. É membro do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP). E-mail: oripec@terra.com.br.

18/09/2015

Veríssimo, leituras, etc.

Charge impagável de Luis Fernando Veríssimo, no jornal “Estadão” de domingo, 13-9-15, Caderno 2, “Família Brasil”. Um senhor, conversando com adolescente, tenta convencê-lo de que o livro impresso ainda é melhor que o eBook: —“Livro não precisa ligar na tomada, não depende de programas ou senhas, está sempre pronto para ser lido...” — e o jovem o interrompe: — “Então qual é a graça?”

A “graça” dessa nova tecnologia reside na manipulação rápida de um brinquedo sofisticado e colorido. O conteúdo da informação não interessa muito se as frases não forem curtíssimas, desobrigando qualquer reflexão crítica do dono do brinquedo.

Considero Luis Fernando Veríssimo uma das mais lúcidas cabeças deste país. Culto e também um bom caráter. Jamais li, ou ouvi, alguém criticá-lo. É uma unanimidade nacional. Pelo que li na mídia, foi até sondado para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Com modéstia autêntica Veríssimo agradeceu delicadamente a lembrança mas declinou da honraria. Salvo má informação da mídia, teria dito que a ABL não seria “sua praia”.

Recusou, creio, porque, como acadêmico — ele seria eleito —, seu espírito naturalmente brincalhão e irreverente ficaria um tanto inibido. Não combinaria integralmente com a seriedade engravatada, exigível e esperável de uma academia intelectualmente altaneira como a ABL. Essa recusa foi coisa rara no Brasil. Muitos pagariam fortunas para se tornarem “imortais”, se fosse possível usar o dinheiro para esse fim.

Escritores ou atores vocacionados para o humorismo têm propensão para ver as pessoas e o próprio mundo pelo lado mais cômico. Suas associações de ideias tendem quase automaticamente para a caricatura expressa em palavras. Com tal preferência é natural que ocupe boa parte de seu tempo de descanso lendo textos humorísticos, os quais vão se empilhando no inconsciente à espera de uma provocação.

Somando-se a essa inclinação natural o constante “registro” cerebral de notícias e historietas cômicas o resultado só pode ser um: a interpretação do mundo como uma vasta “comédia” . Como de fato é, se vista filosoficamente a nossa civilização. Ao mesmo tempo avançadíssima na tecnologia e tragicamente ridícula na convivência humana: guerras e mais guerras, roubos e mais roubos, crimes e mais crimes, mentiras e hipocrisias em todos os níveis. Balzac sabia o que fazia quando escolheu um título para sua obra, “A comédia humana”.

Tenho um exemplo comigo mesmo sobre a escolha preferencial de certas leituras. Concluindo que o conhecimento da língua inglesa me permitiria ficar mais antenado com a cultura universal — que sempre me atraiu mais que a Ciência do Direito — resolvi, já sessentão e aposentado, aprender inglês pelo método mais agradável: lendo piadas e anedotas nessa língua, com ajuda de um dicionário. Devo te lido mais de mil. Atingi meu objetivo linguístico — poder ler inglês, embora sem falar, por falta de uso — porém um canto de minha mente ficou permanentemente “contaminada” pelo vírus travesso do humor.

Com o passar do tempo ocorria — e isso continua —,  o seguinte fenômeno: conversando com qualquer pessoa, mesmo sobre assuntos graves, é frequente que um fato, palavra, ou frase do meu interlocutor me faça lembrar de uma anedota especialmente inteligente, ou marcante por seu disparate. Essa intromissão humorística, sem minha autorização, me faz perder alguns segundos da exposição do interlocutor, obrigando-me a tentar preencher essa omissão com conjeturas sobre o que ele teria dito. Esforço meu que, por sua vez, provoca nova distração — obrigando-me a pedir a ele, ou ela que por favor, repita o que acabou de dizer. Finjo-me mais surdo do que sou, ou preocupado com um assunto grave e particular. Não posso confessar, por exemplo, que o que ele acabou de relatar, pesaroso, sobre a doença da mãe de sua mulher me fez lembrar uma piada de sogras.

Ninguém tem completo controle sobre a própria cabeça. Podemos apenas controlar o “freio”, da língua ou dos dedos — no teclado ou na caneta —, mas nunca o fluxo espontâneo das ideias. Depois desta confissão não pedirei a ninguém que repita alguma coisa. Do contrário meu interlocutor, agastado, indagará: — “A piada pelo menos é boa?”

Veríssimo, além de inteligentíssimo é  superiormente abastecido de informações gerais em duas línguas, português e inglês. Arrisco acrescentar em quatro: também em espanhol e francês. Soube combinar, com superior engenho, essa massa enorme de informações esparsas aguardando conexões. Quando bem jovem, morou nos EUA, o que lhe permitiu depois estar à vontade, espremendo e articulando dados obtidos na língua mais carregada de informações no mundo.

A única e perigosa restrição  — “não se deve cutucar onça com vara curta” — a esse escritor tão hábil é o fato dele colocar o jazz nas alturas. Será o jazz o equivalente da arte moderna, em que o pintor não precisa saber desenhar? Vou comprar um CD de jazz — caso exista — para tentar compreender seu entusiasmo pela aparente bagunça sonora.

Atualmente há mais chineses falando inglês do que norte-americanos falando a própria língua, — algo espantoso porém explicável pelo população da China — mas nem o mandarim nem o cantonês somados disponibilizam o mesmo volume de conhecimentos arquivados em língua inglesa.

O humor de Veríssimo não só é inteligente como também sem vulgaridade. Digo isso porque o humor de um humorista qualquer pode revelar sua viva inteligência, mas com um porém: o acúmulo constante de palavrões e descrições sexuais que ferem os ouvidos de pessoas mais sensíveis, principalmente as mulheres.

Estas, numa festa, por mera educação ouvem as barbaridades engolindo em seco, mas logo tratam de se afastar alegando uma urgência qualquer. Nem esperam o término da anedota que pode até ser inteligente. A peluda — com alusão — narrativa bloqueia o entendimento da ouvinte, enojada com o genérico fedor do assunto. Perdem o fio e a conclusão da anedota.

Essa limitação do piadista quase exclusivamente pornográfico, explica-se talvez pela restrita informação de quem pouco lê. Falta-lhe um “bom material”, suficientemente volumoso para dele extrair o esparso “ouro” do melhor humor. Ele terá, claro, o seu público, restrito a narizes mentais calejados. Tais humoristas nunca seriam convidados para integrar a ABL, ou mesmo qualquer outra academia do mais remoto município.

Por que estou discorrendo tanto sobre Luis Fernando Veríssimo? Porque sua charge revela que a tecnologia da informática não está, de fato, ajudando muito para elevar a cultura e sensibilidade de nosso povo.

Principalmente da nossa juventude, mais interessada — e moldada pela propaganda —, a consumir, frequentar baladas, vestir-se bem, assistir futebol — sem jogar, apenas urrando e xingando. Isso sem mencionar as pancadarias entre times de futebol, com uso de sarrafos e barras de ferro, além do “vale tudo” entre mocinhas rolando no chão — a feia sempre mais feroz que a bonita —, disputando namorados na porrada, unhada e puxão de cabelo.

Assim funciona a cabeça de uma parcela da nossa juventude, certamente revoltada com sua desvantajosa e herdada situação econômica, se comparada com a dos “filhinhos de papai”. Não sentem grandes esperanças no futuro, via estudo, raramente grátis quando de boa qualidade.                                                                                                                                                                                       
Descontados meus floreios redacionais, eles pensam mais ou menos assim: — “A vida é curta. O emprego é raro e disputado, mesmo com salário baixíssimo. As balas perdidas voam como vespas assassinas. As escolas são chatas, levam anos nos ensinando coisas que não dão dinheiro e perde-se um tempo enorme no trânsito. O que “ajuda” um pouco é quando há greve de professores, mas depois vem o castigo: a reposição de aulas em época de férias”.

“Simultaneamente estudar e trabalhar é pesado demais. Frequentar escola não mais é ‘o caminho’. Basta ver nosso ex-presidente que passou por cima disso tudo, como um trator barbudo. Assim mesmo tornou-se “doutor honoris-causa”, bajulado em várias universidades europeias. E dizem ainda, completando seu triunfo, que está milionário. Mesmo fora do cargo dá conselhos a economistas com doutorado em Harvard. Assim, para que a gente perder tempo ouvindo coisas que não nos interessam? Conheço um cara, coitado, que pacientemente estudou Direito mas já foi reprovado cinco ou seis vezes nos exames da OAB. Não sei se a culpa é dele, da Faculdade, ou da OAB, preocupada com o baixo nível do ensino mas também com a concorrência de milhares de canudos inundando o mercado. Esse possível futuro advogado, já pensa em desistir. Tentou ser taxista mas ainda não conseguiu, por falta de dinheiro para comprar uma licença, ou coisa que o valha”.

E o jovem filósofo do pessimismo prossegue: — “Airton Senna estudou? Não. Neymar estudou? Também não. O Senna, se tivesse estudado, ainda estaria vivo, mas sem glória e ganhando pouco. Na pior das hipóteses de moto, entregando ‘pizza delivery’, endividado pelas multas por excesso de velocidade . Neymar, com os dribles, ganhou vários Prêmios Nobel — a parte do dinheiro — por mês. Além disso..., confesso: sinto muita dificuldade em me concentrar quando tenho que ler assuntos complicados ou simplesmente extensos. Tenho horror a livro. Talvez eu seja inquieto demais. Acho que tem muita abobrinha entre as capas. O fato é que não consigo me concentrar na leitura. Sei que não sou burro, sou apenas prático. Alguma coisa, na minha vista ou no meu cérebro, me atrapalha e me afasta de qualquer leitura mais demorada”.

É neste finalzinho do desabafo do hipotético moço que acrescento algumas sugestões ao legislador brasileiro para elevar a cultura do povo brasileiro . Fazendo isso melhoro nossa representatividade no Poder Executivo e no Legislativo.

Como o presente artigo já está longo demais, serei conciso a partir de agora, sem as divagações precedentes, de duvidoso gosto ou conveniência. Faço isso a contragosto, forçado pela necessidade doentia da brevidade na internet, essa castradora do pensamento bem explicado.

Resumindo, sugiro: 1) que o Congresso edite lei que permita aos autodidatas — ou educados  particularmente, de  qualquer idade — a prestar exames para comprovação de conhecimentos adquiridos apenas com a leitura de textos; 2) que o Governo, em todos os níveis, incentivem e facilitem aos jovens de poucos recursos a possibilidade de consulta e tratamento médico grátis na rede pública, para exame de eventuais problemas visuais, auditivos e glandulares que possam prejudicá-lo na capacidade de aprender ( uma tireoide preguiçosa, por exemplo, retarda os processos mentais); 3) que jovens, mesmo curados de problemas físicos, ainda revelem dificuldades na compreensão de textos — compatíveis com sua instrução —, serão encaminhados a profissionais especializados em problemas de aprendizado. Está aí a solução para o chamado analfabetismo funcional brasileiro. 


Dou um exemplo: se o leitor, com ou sem óculos, pode ler bem as palavras de uma linha com o olho esquerdo, mas com o olho direito só vê palavras meio “embaçadas” (mesmo com óculos corretivos), essa desigualdade de visão — inclusive periférica — dificulta o entendimento do que está sendo lido. Imaginando que se trata de um problema relacionado com a inteligência o leitor larga o livro e vai fazer outra coisa. Ele não percebe que sua “falta de concentração”, ou compreensão, tem origem na “má sociedade” entre olho direito e esquerdo. Assemelha-se a uma firma de dois sócios em que um é esperto, “vê longe”, e o outro “vê tudo confusamente”. Essa sociedade não dá certo.

Há, porém, um “truque” para contornar o problema, na área ótica: se o leitor, com o olho bom, esquerdo, der uma prévia “espiada” mais para o lado direito da linha escrita — antes de ler —, essa “espiada” permitirá uma melhor compreensão do texto. Se a dificuldade persiste, que dê outra espiada, sem propriamente ler. Alternando leituras e “espiadas”. Isso melhora a visão periférica. Um truquezinho para situações especiais. Um oftalmologista me explicou que quando um paciente perde um olho em acidente ele recebe instruções para contornar o déficit da perda, ficando, com o treino, em condições de ler tão bem quanto os demais leitores.


E fico por aqui. Forçado. Tive que cortar e arquivar razoáveis desdobramentos sobre leituras, inteligência, política e temas correlatos. No fundo, todas as questões, neste planeta louco, são correlatas, ainda que remotamente. Na própria “loucura” pode haver um grão perdido de sabedoria. Talvez, o que guardei no computador, para uso próximo, seja mais interessante. Veremos.

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